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O desafio do PIM para refrigerar um mundo mais quente com menos energia

Em 2025, o PIM produziu aproximadamente 6,35 milhões de aparelhos do tipo split, que geraram faturamento de R$ 12,64 bilhões. Freepik O avanço das temperatur...

O desafio do PIM para refrigerar um mundo mais quente com menos energia
O desafio do PIM para refrigerar um mundo mais quente com menos energia (Foto: Reprodução)

Em 2025, o PIM produziu aproximadamente 6,35 milhões de aparelhos do tipo split, que geraram faturamento de R$ 12,64 bilhões. Freepik O avanço das temperaturas extremas transformou a climatização em uma necessidade que ultrapassa as regiões tradicionalmente quentes. Em junho de 2026, a Europa Ocidental registrou o junho mais quente de sua série histórica, com temperatura média de 20,74°C, 3,05°C acima da referência de 1991 a 2020, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM). A OMM também confirmou que 2025 foi o segundo ou terceiro ano mais quente já registrado, dependendo da base analisada, e que 2023, 2024 e 2025 foram os três anos mais quentes da série histórica. À medida que as temperaturas sobem, cresce a utilização de aparelhos de ar-condicionado. O equipamento que protege a população do calor também aumenta a demanda por eletricidade, principalmente quando milhões de unidades são acionadas ao mesmo tempo. Essa relação coloca a indústria da climatização no centro de uma discussão mundial - e aproxima o Polo Industrial de Manaus (PIM) de uma questão que ultrapassa o mercado regional. 📲 Participe do canal do g1 AM no WhatsApp Agora no g1 O peso da climatização A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) calcula que o consumo mundial de eletricidade destinado à climatização cresceu 50% desde 2015, alcançando aproximadamente 2.900 terawatts-hora, volume superior a toda a demanda elétrica da União Europeia. Embora represente cerca de 10% do consumo mundial de eletricidade ao longo do ano, a climatização responde por aproximadamente 30% da demanda nos horários de pico. Em 2025, os equipamentos utilizados para resfriar ambientes contribuíram com 1.400 gigawatts de demanda máxima, o equivalente à capacidade total de geração instalada nos Estados Unidos. A expansão também aparece no mercado. Em 2024, os fabricantes enviaram aproximadamente 200 milhões de condicionadores de ar aos mercados mundiais. Na América Latina e na África, esse volume cresceu 40% ou mais em relação ao ano anterior. No Brasil, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estima que, dependendo da presença dos aparelhos nas residências e dos ganhos de eficiência, a climatização poderá responder por algo entre 13,7% e 17,9% do consumo residencial de eletricidade em 2036. A discussão, portanto, não está restrita à indústria ou à conta de luz do consumidor. Ela envolve planejamento energético, investimentos em geração e distribuição e capacidade para atender aos picos de consumo provocados pelas ondas de calor. A escala do PIM Os dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) demonstram a dimensão dessa atividade. Em 2025, o PIM produziu aproximadamente 6,35 milhões de aparelhos do tipo split, que geraram faturamento de R$ 12,64 bilhões. Também foram fabricados cerca de 374 mil equipamentos de janela ou parede. Somadas as duas categorias, a produção alcançou aproximadamente 6,72 milhões de unidades, segundo dados ainda classificados como parciais pela Suframa. No conjunto do país, o setor de Aquecimento, Ventilação, Ar-Condicionado e Refrigeração (AVAC-R) faturou R$ 50,15 bilhões em 2025, cerca de 10% a mais que no ano anterior, segundo a Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava). Para 2026, a entidade projeta faturamento de R$ 55,62 bilhões. A tendência estrutural é de crescimento, mas a produção está sujeita a oscilações. Estoques do varejo, crédito, juros, renda, câmbio, custos dos componentes e decisões das fabricantes também interferem no ritmo das linhas. O aumento das temperaturas favorece a procura, mas não determina sozinho o desempenho industrial. Produzir mais não será suficiente A posição do PIM nessa cadeia não deve ser medida apenas pelo número de aparelhos produzidos. Em um cenário de pressão crescente sobre os sistemas de energia, a eficiência de cada equipamento passa a ter importância econômica e ambiental. As fabricantes já oferecem modelos com tecnologia inverter, sensores, conectividade e sistemas inteligentes de controle. O compressor inverter ajusta sua velocidade à necessidade do ambiente, evitando sucessivos ciclos de acionamento e desligamento. Os recursos digitais podem interpretar condições de uso, controlar a temperatura, identificar desperdícios e acompanhar o consumo. Isso não significa que todos os aparelhos tenham o mesmo desempenho. O Programa Brasileiro de Etiquetagem, coordenado pelo Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), utiliza o Índice de Desempenho de Resfriamento Sazonal (IDRS) para avaliar a eficiência dos equipamentos em diferentes condições de funcionamento. Dois modelos inverter, portanto, podem apresentar consumos distintos. O Brasil também estabelece níveis mínimos de eficiência energética e iniciou, em 2026, a primeira etapa do Programa Brasileiro de Redução do Consumo dos Hidrofluorcarbonetos (HFCs), gases utilizados em sistemas de refrigeração e climatização que apresentam elevado potencial de aquecimento global. Em cumprimento à Emenda de Kigali ao Protocolo de Montreal, o país tem como metas reduzir o consumo dessas substâncias em 10% até 2029 e em 80% até 2045. O desempenho real, entretanto, não depende apenas da fábrica. Instalação, manutenção, dimensão do ambiente, incidência solar, isolamento térmico, vedação e hábitos de uso interferem diretamente no consumo. A resposta também envolve outras fontes e uma gestão mais eficiente da energia. Geração solar, armazenamento e sistemas térmicos que utilizam calor residual ou gás natural podem atender parte da demanda de grandes instalações. Sombreamento, ventilação, arborização e isolamento térmico também reduzem a quantidade de energia necessária para climatizar os ambientes. Uma corrida mundial por eficiência A busca por aparelhos que refrigerem mais com menos energia já movimenta os principais centros fabricantes. A China, maior base industrial e maior mercado mundial de condicionadores de ar, produz cerca de 170 milhões de unidades por ano e exporta aproximadamente 60 milhões, segundo a IEA. Fabricantes chinesas vêm aperfeiçoando compressores capazes de operar em frequências muito baixas, algoritmos que ajustam o funcionamento às condições do ambiente, fluidos refrigerantes de menor impacto climático e sistemas integrados diretamente à geração solar. A Gree informa ter desenvolvido soluções fotovoltaicas nas quais a energia dos painéis pode alimentar diretamente a climatização, tecnologia mais associada a aplicações comerciais e de maior porte. A empresa também trabalha com compressores inverter capazes de operar a 1 hertz, reduzindo a potência quando o ambiente já está climatizado. A Midea utiliza sensores, dados e algoritmos de inteligência artificial para ajustar a operação dos aparelhos. A companhia afirma que determinados modelos podem reduzir o consumo em até 50%, mas esse percentual é uma informação do fabricante e varia conforme o equipamento e as condições de utilização. Nos grandes sistemas de climatização, fabricantes chinesas também investem em compressores com levitação magnética, tecnologia que reduz o atrito entre componentes e pode diminuir o consumo e a necessidade de manutenção. Parte dessas soluções já chegou ao mercado brasileiro; outras permanecem concentradas em equipamentos comerciais ou aplicações específicas. A comparação internacional mostra que a eficiência é uma fronteira em permanente transformação e que a concorrência envolve cada vez mais engenharia, componentes, software e integração com o sistema energético. Para Manaus, a pergunta é como uma base que fabrica milhões de aparelhos por ano poderá acompanhar essa evolução e contribuir para equipamentos ainda mais eficientes, acessíveis e adequados a regiões submetidas a calor e umidade intensos. Componentes e novas oportunidades Um dos pontos estratégicos é o fornecimento de componentes. Em 2025, a Suframa, o Ministério de Minas e Energia (MME) e a Associação Nacional de Fabricantes de Produtos Eletroeletrônicos (Eletros) discutiram com representantes chineses a concentração da oferta nacional de compressores. Segundo a Eletros, a cadeia dependia de um único fabricante nacional em condições de atender às exigências do Processo Produtivo Básico (PPB), o que criou um gargalo para as empresas instaladas em Manaus. No fim de 2025, o governo federal ajustou temporariamente os percentuais exigidos para a utilização de motocompressores nacionais em determinadas categorias de condicionadores de ar. Nesse contexto, a Tecumseh, fabricante que já opera em São Carlos, no interior de São Paulo, prevê investir R$ 60 milhões em uma unidade no PIM. A fábrica terá capacidade estimada de 1 milhão de compressores rotativos por ano, quando estiver em plena atividade, e início das operações projetado para 2028. O plano também contempla um Centro de Aplicação Avançado para testes, validação e desenvolvimento em parceria com as fabricantes locais. A instalação desse fornecedor em Manaus poderá diminuir a vulnerabilidade logística da cadeia, aproximar o desenvolvimento dos compressores das montadoras e reduzir parte dos custos e prazos de transporte. O impacto tecnológico dependerá, contudo, das atividades de engenharia, testes e desenvolvimento efetivamente incorporadas à operação. A transformação da cadeia continua depois da fábrica. Segundo a Abrava, instalação e manutenção formaram a área de maior crescimento do setor brasileiro de climatização em 2025, com avanço de 20,7%. Para Manaus, isso representa oportunidades em assistência técnica, monitoramento remoto, gestão energética, manutenção preditiva e recuperação de fluidos refrigerantes. Um aparelho mal dimensionado, instalado incorretamente ou sem manutenção pode perder eficiência e consumir mais, mesmo quando saiu da fábrica com bom desempenho. O relatório Global Cooling Watch 2025, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), estima que a demanda mundial por refrigeração poderá mais que triplicar até 2050 caso as tendências atuais sejam mantidas. Nesse cenário, as emissões relacionadas ao setor quase dobrariam em comparação com 2022. O crescimento da climatização parece inevitável em um mundo mais quente. A questão é como atender a essa necessidade sem elevar, na mesma proporção, as contas de energia, as emissões e a vulnerabilidade dos sistemas elétricos. A escala alcançada pelas fábricas já coloca Manaus entre os grandes centros dessa indústria. Diante da corrida mundial por eficiência, o ponto central é saber como o PIM poderá continuar aprimorando seus produtos, componentes e processos para ajudar a refrigerar um mundo mais quente utilizando menos energia. Cristina Monte é jornalista, colunista e analista de negócios, especializada na cobertura de indústria, inovação e desenvolvimento econômico na Amazônia.

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