Inspirada em algas, 'rede' consegue capturar microplásticos de vários tamanhos na água
Partículas de plástico de diferentes tamanhos, desde fragmentos de poucos milímetros até micro e nanopartículas. Byeunggon Kim, Haeleen Hong e Orlin Velev/...
Partículas de plástico de diferentes tamanhos, desde fragmentos de poucos milímetros até micro e nanopartículas. Byeunggon Kim, Haeleen Hong e Orlin Velev/NC State University Pesquisadores nos Estados Unidos desenvolveram uma espécie de rede altamente aderente inspirada em estruturas formadas por algas marinhas capaz de retirar da água partículas de plástico de tamanhos muito diferentes — um dos principais obstáculos enfrentados pelas tecnologias criadas até agora para combater esse tipo de poluição. Em testes de laboratório, a estrutura conseguiu capturar desde partículas extremamente pequenas, medidas em centenas de nanômetros, até fragmentos de vários milímetros. ➡️ Em experimentos com microplásticos retirados do ambiente, a eficiência de remoção chegou a 92%. A rede também funcionou tanto em água doce quanto em condições de alta salinidade. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça Para conseguir capturar partículas de tamanhos tão diferentes, os pesquisadores criaram uma estrutura que atua de duas formas. A malha retém os fragmentos maiores, enquanto uma camada de fibras muito finas e ramificadas faz as partículas menores aderirem à superfície. Com isso, na prática, ela funciona ao mesmo tempo como uma peneira para os pedaços maiores e como uma superfície aderente para os menores. O trabalho, publicado na revista Science Advances, foi inspirado em emaranhados naturais de algas e nas chamadas “bolas de Netuno”, estruturas formadas por restos fibrosos de plantas marinhas que podem acumular partículas de plástico no oceano. Os cientistas tentaram reproduzir justamente essa capacidade de capturar detritos em diferentes escalas. "A ideia era criar uma estrutura que fizesse o mesmo que as algas entrelaçadas já fazem na natureza", disse ao g1 Orlin Velev, professor de engenharia química e biomolecular da Universidade Estadual da Carolina do Norte (EUA) e autor do estudo. LEIA TAMBÉM: Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' Cientistas descobrem microplásticos no corpo de girinos da Amazônia Agora no g1 O resultado é uma malha porosa com duas camadas que trabalham juntas. A parte interna forma uma espécie de rede que prende fisicamente os fragmentos maiores de plástico. Por fora, ela é coberta por uma camada de fibras extremamente finas e ramificadas, que gruda nas partículas menores por adesão, de forma parecida com o que acontece nas patas de uma lagartixa, cobertas por fios microscópicos que permitem que o animal se prenda a quase qualquer superfície. "O que se obtém no final parece uma rede fofa. A parte de 'rede' da estrutura consegue capturar os microplásticos maiores, de um milímetro ou mais. Além disso, os fios individuais dessa rede são 'fofos' porque são cobertos por essas estruturas ramificadas, que conseguem capturar por adesão até partículas muito pequenas, de dezenas de nanômetros", explicou Velev. Nos testes, os pesquisadores usaram tanto partículas produzidas em laboratório quanto microplásticos reais, recolhidos de uma praia no Havaí. Em ambos os casos, a malha funcionou bem tanto em água doce quanto em água salgada, o que indica bom potencial de uso em rios, represas e também em ambientes costeiros e oceânicos poluídos. LEIA TAMBÉM: Por que Amsterdã proibiu qualquer propaganda de carne nas ruas ANTES e DEPOIS: imagem da Nasa mostra geleira na Antártida que recuou 25 km em tempo recorde A erupção vulcânica que produziu o som mais alto registrado na história Maioria dos microplásticos são invisíveis a olho nu. Adobe Stock Apesar dos resultados positivos, a equipe é cautelosa quanto à aplicação prática da tecnologia. Segundo Velev, o estudo, por enquanto, está mais concentrado em provar que o princípio funciona do que em pensar em usos imediatos. O maior trunfo, segundo ele, é o fato de a malha ser feita de material natural e barato, o que significa que, mesmo que nem toda a estrutura seja recuperada depois do uso, ela não deve causar dano ao ambiente, já que se degrada naturalmente. A ideia dos pesquisadores é que, depois de saturada de microplásticos, a malha possa ser recolhida e reprocessada — inclusive com a ajuda de micro-organismos capazes de degradar o plástico capturado e, a partir disso, ajudar a produzir novas malhas. "Já mostramos que esse desenho funciona. E os materiais que usamos são de origem natural e relativamente baratos. Então, pode ser um caminho viável. Se pode ser usado em larga escala, isso depende de quanto queremos investir para ampliar esse tipo de solução", afirmou o pesquisador. Nova espécie de "fungo zumbi" é descoberta no Brasil